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V I R A D A


COLUNISTAS









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Sobre vencer na vida


 

A primeira vez que eu empreendi, tinha entre oito ou nove anos e, para fazer o dinheiro que ganhava dos meus avôs render, decidi revender chicletes durante o recreio na escola. Comprava duas caixas, uma com chicletes da Barbie e outra de ping-pong azuis e pretos, aumentando as minhas chances de conquistar clientes, já que atendia "meninos e meninas". Em casa, também comecei a fazer gelinho (sacolé, geladinho) e colocar uma placa, feita com papelão e lápis de cor, no portão. A primeira venda foi a glória, mas descobri cedo o triste sabor do calote e percebi que minha melhor cliente, uma garota um ano mais nova, estava viciada em meu produto, mas não tinha como manter isso, o que me deixou um pouco deprimida.

Resolvi parar com as vendas e agir de forma mais sustentável, sempre que eu quisesse dinheiro para comprar alguma coisa na cantina - meu grande sonho de consumo da época -, me planejaria para levar algo gostoso na lancheira e conseguir trocá-lo pelo produto ou dinheiro necessário. Explico: sou de uma família muito simples e era bolsista em uma escola particular, ou seja, boa parte dos meus amigos tinha mais dinheiro do que eu, mas uma mãe menos prendada na cozinha. Percebia claramente esse meu "diferencial" quando levava hambúrguer caseiro ou bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Essa nova estratégia deu muito certo durante um tempo e me ensinou algo importante para a fase que viria a seguir.  

No último ano antes do ensino médio, meu pai estava desempregado, minha mãe mantinha a casa sozinha como diarista e era insustentável me deixar na escola Adventista, mesmo com bolsa quase integral. Meus pais então me colocaram em um colégio público, desses que têm fila na porta por oferecer um ensino acima da média. O choque, porém, veio nas primeiras semanas de aula. Vi uma menina ser espancada por outras garotas, por ser bonita e ter roupas de moda, o que fazia dela, automaticamente, uma pessoa considerada "metida", crime imperdoável e passível de punição na porta da escola.  

Fiquei horrorizada. Mesmo não correndo o risco de ser espancada por esse motivo, já que vestia roupas bem populares e tinha uma beleza comum, percebi que precisava "me proteger". E fiz isso de duas formas: sendo útil e despertando medo, mesmo sem ameaçar ninguém.  

Eu sempre gostei de escrever e, por praticar muito, confiava no meu talento para tocar as pessoas através das palavras. Nas aulas de redação, consegui expor esse meu lado e não demorou muito para que pedidos começassem a surgir. Filhos querendo textos para as mães, cartões de aniversário para amigos, mas, principalmente, namoradas ou admiradores secretos pedindo cartas de amor. Eu não cobrava pelo serviço, pelo menos não diretamente, mas sempre acabava ganhando balas, chocolates e, principalmente, o respeito e simpatia de todos os grupos, inclusive dos mais "brigões", o que me garantia uma certa tranquilidade.  

Em paralelo, por gostar muito de ler, ser uma pessoa introvertida e, nessa época, ter interesse por assuntos místicos, rapidamente ganhei a fama de ser bruxa, o que deixava as pessoas um pouco apreensivas, mais para o bem do que para o mal. Sem perceber, havia criado a minha própria versão de "O Príncipe" de Maquiavel, sendo um pouco temida e amada e, com isso, garantindo a minha paz e um colegial sem grandes sustos ou traumas.

Muitas coisas que vivi na minha carreira como jornalista foram importantes, porém, durante os anos escolares, aprendi lições essenciais para me manter viva e feliz no mercado de trabalho. Foi na escola que percebi pela primeira vez que dinheiro não era tudo, as pessoas eram mais importantes do que ele. O que me interessava não era acumular muitos bens, mas poder viver o melhor de cada momento - seja comendo algo gostoso na cantina ou embarcando para uma viagem.  

Na sala de aula, eu também aprendi que trabalhar com o que se gosta poderia ser promissor, que colocar o seu talento em favor do sonho do outro garantia clientes mais felizes e fiéis, que construir uma história fantástica ao redor de si e/ou do seu produto era um diferencial importante. Todo mundo quer ter contato com algo mágico.  

É claro que, enquanto vivia as situações que contei, não tinha noção de tudo isso, mas, com o tempo, fui notando novos sentidos para cada momento. Hoje eu continuo escrevendo cartas de amor, em forma de dicas e roteiros turísticos, que alimentam a minha paixão por viagens e ajudam outras pessoas a expandirem seus horizontes. E procuro, através do projeto Cartas para o Futuro, inspirar outras meninas da periferia a enxergarem que devem acreditar em seu potencial e, mais do que isso, que "de onde eu vim, se você não tem saída, vence", como diz um rap que gosto muito do Rashid. E vencer não significa "ser a melhor do mundo", mas sim, ser melhor consigo mesma, aprender a se ouvir e fazer escolhas que respeitem quem você é.  

Talita Ribeiro é jornalista especializada em turismo, com MBA em Gestão Estratégica de Serviços, e presta serviço como produtora de conteúdo para startups e grandes marcas do setor de viagens, como Voopter e Smiles. Ela também compartilha suas dicas em palestras e através das redes sociais: twitter  e blog.

Fonte: Divulgação

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